segunda-feira, 9 de maio de 2016

Ventania

*por Maria ElviraTavares Costa



Por aqui, tem ventado, Vento de tempestade...
Levantando saias e telhados.
Desmanchando cabelos
E acordos mal arranjados.
Venta, sopra, serpenteia.
Redemoinha, redemoinha, redemoinha...
Bate portas e janelas, Assusta empresas e assessores... E derruba coisas que se imaginavam Para sempre de pé.
Venta, sopra, serpenteia.
Redemoinha, redemoinha, redemoinha...
Vai virando correria.
Muita gente, no sem rumo, Procurando as coisas
Para tentar por no lugar...
Difícil é saber se, depois do vento passado,
Ainda haverá o lugar certo das coisas
Ou, até mesmo,
Se haverá coisas para se por nesse lugar...
Venta, sopra, serpenteia.
Redemoinha, redemoinha, redemoinha... E a gente só observando, em torcida organizada, que é pro vento continuar!
Vento, vento, ventania... Que papai chamava pelo assovio, Para as telhas cruas secar. Ah, meu pai poderoso, a quem Até o vento obedecia!
Conhecia assovio de chamar saci... E, logo, a poeira ventava, Girando, girando, redemoinhando...
(Mas, o moleque, mesmo, eu nunca vi!)
Ah, esse Vento...
Que saudade grande me trouxe...
Que esperança de vida nova!
Assovia, Pai, assovia!
Ajuda esse vento a ventar!
Venta vento, ventania!

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Madona

*por  Maria Elvira Tavares Costa

Eu visitava um Centro de Referência Social, um CRAS, da minha cidade. Lugar de atendimento às pessoas carentes. Conduziria uma oficina. Enquanto aguardava a chegada dos demais participantes, observei uma mulher que conversava entre outras mulheres. Pareceu-me que as divertia com suas histórias, um tanto bizarras. Todas biográficas. Fantasiosas ou não... Quem poderá estabelecer o agudo fio dessa navalha?

Alguém lhe perguntou qual a origem do seu codinome: “Madona”.

Sem rodeios nem timidez, a mulher, de idade indefinida, e de beleza ocultada pelas roupas brutas qual gari ou cortadora de cana, satisfez a curiosidade das ouvintes: Um homem lhe prometera dinheiro se ela fizesse aquelas coisas para ele. Ela fez. De volta ao bar, ele disse que não pagaria porque ela não sabia fazer as coisas direito.

Ela contava rindo.

- “Não vai pagar não? Então, tá!”

-“Peguei uma cadeira e quebrei nele. Deixei ele no chão, todo ensanguentado. Aí, tive que fugir. Minhas amigas foram comigo. Fomos para a BR, pegar carona de caminhão. Foi quando decidimos trocar de nome. Não podíamos usar os nossos mais. Cada uma escolheu o seu. Mas, foram elas que escolheram o meu. Porque eu tinha derrubado o sujeito, acharam que eu devia me chamar Madona. Eu não gostei não, mas, pegou...”

As moças continuaram se rindo. Não perceberam quando ela mudou o tom para contar outra história. Quanto a mim, ela já tinha me fisgado. Meus olhos não desgrudaram mais.

Ouvia – a fala correta, o português bem construído. Onde teria aprendido? Que passado teria existido antes desse presente que, naquele momento, eu testemunhava?

Observava. As tatuagens que as mangas arregaçadas permitiam enxergar. Os cabelos, louros, cobertos por uma touca. O rosto – o que seriam aquelas linhas que como que escorriam, uma de cada lado, como caminho de lágrima? Tatuagem antiga, azulada? Não consegui esclarecer. Mas, que imagem forte naquela face de tantas histórias...

Fiquei pensando na condição da prostituição e me perguntando como seria “fazer as coisas direito” para uma pessoa que vive em meio a tanta violência e agressões. Como fazer carinho? Como demonstrar afeto? Como fazer amor?

Ela não me deixou seguir por dentro. A história seguiu. As moças , me pareceu, nem a ouviam mais, talvez pelo tom. Eu a segui.

- “O pai da minha filha a roubou de mim. Ela tinha seis meses. Ele a levou embora. Meus peitos escorriam de leite. Eu enlouqueci. Saí procurando pelo Recife, até encontrar... Na casa da irmã dele. Ele era metido a rico... Eu meti o pé na porta. Forcei para entrar... Ela não queria deixar. Minha filha chorava – ela só tomava leite de peito, não aceitava mais nada. Ela estava com fome. E meus peitos estavam escorrendo leite. Eu mostrei prá dona da casa.

Eu falei o que ela estava fazendo. Ela trouxe minha filha. Ela logo veio pro meu peito. Eu saí correndo daquela casa. Sentei na calçada. Fiquei ali, amamentando minha filha e chorando. Nunca mais deixei o pai ver a filha. Nunca mais. Ela hoje tem 19 anos, e é uma moça linda!”

Madona, Ma Donna, Minha senhora... um dos nomes de Maria. Nome de Mãe!

"Eu vi minha mãe rezando,
Aos pés da Virgem Maria
Era uma santa escutando
O que outra santa dizia."



sexta-feira, 22 de abril de 2016

Menina

*por Maria Elvira Tavares Costa




Menina foi nascida lá prás bandas do norte do Estado, por volta de 1935.
Mãe negra, pai branco.


Família branca perseguiu a mãe até que ela abandonou tudo. 
Menina ficou para trás.


Foi levada para ser criada pela avó - a branca.
Mas... não era a neta, era, apenas, a filha da negra.


Roupa não tinha: vestia um saco de farinha com um buraco em cima, para passar a cabeça, e dois do lado, para os braços.
Não sabia o que era calcinha. Nem carinho. Menos ainda amor.


Servia para trabalhar: no roçado.


Aos 12 anos, um vizinho de 54 pediu ao pai prá casar com ela.
Cinquenta e quatro anos!
A avó, branca, achou boa a ideia: Menina dava muita despesa!


Mudaram a certidão de nascimento, que ainda nem tinha idade para poder casar. Mandaram fazer um vestido: que Menina teve de pagar, trabalhando por três meses a mais na roça da própria família.


Mas, valeu à pena! Era o seu primeiro vestido - e era lindo.


De casar, a menina sabia muito pouco: os bebês, para ela, ainda era a cegonha quem trazia. Achava que ia cozinhar, lavar a roupa e cuidar daquele homem de quem ela tomava a benção.


No dia da festa, faltou muito pouco para apanhar, mais uma vez, do pai. Mas, de tanto chorar, ele não bateu. Não mais ele.


Mudou de casa.
Encontrou, no centro espírita do seu novo dono, muitas mulheres que o beijavam na boca, à vista de todos. Não se incomodou - na verdade, nem sabia bem o que era tudo aquilo.


Cortou o vestido no comprimento - e não o tirou. Era o seu primeiro e único.


Dez dias se passaram sem que ele a tocasse. Até aquela tarde, em que ele chegou bêbado e a colheu em meio ao roçado.


Chegou por trás e lhe deu uma rasteira. Uma rasteira.


Ela caiu, assustada. Ele pulou sobre ela - animal na presa. Nos seus 12 anos. Ele, 54.


Ela gritou, ele a estapeou e a fez calar.


Dali para frente, seria sempre assim.


O vestido único se cobriu de sangue.


E quando o seu corpinho passou a menstruar, os filhos se sucederam - que a lavoura precisava de mão de obra. O marido decretou: a barriga não pode ficar vazia.


Ela me contou de 22 - mas, não sei se ouvi direito...


Depois de insuportáveis dias e anos iguais, os filhos maiores começaram a ir para a escola. Ela ia levar. Cabisbaixa, sem nunca conversar com ninguém. Só sabia trabalhar e obedecer.


Um dia, a Diretora da Escola estava esperando por ela no portão. Ai, que medo!


Diretora a levou para dentro, ela olhando pro chão. Diretora perguntou por que os filhos não faziam o dever de casa. Ela chorou. Diretora deu água e atenção, e descobriu que a menina-mãe não sabia ler, nem escrever.


Certamente, o caso de Menina devia ser corriqueiro naquela terra sem lei, naquele tempo tão mais desigual. Ou seria ainda hoje, mesmo assim?... Mas, aquela diretora entreviu a dor e a escravidão - e seu coração se comoveu.


Uma janela, lá no céu, começou a se abrir e deixar entrever o sol!


Perguntou se ela gostaria de estudar. Os olhos se arregalaram de surpresa e alegria - coração, que nunca pôde, quis sonhar... Mas, logo, o medo do algoz a fez estremecer. Diretora disse que dele ela daria conta.


Mas, foi o marido da diretora quem o deu. Fazendeiro, tratado por coronel. Importante. Cheio de jagunços. Procurou o sujeito. Disse que a menina precisava estudar prá poder ensinar o dever de casa para os filhos - senão, a diretora, mulher dele, ia ter problema na escola.


O cabra, que só era macho com menina desamparada, piou miudinho na frente do coronel.


Menina estudou. Menina aprendeu a ler. Menina aprendeu a sonhar.


Num mesmo ano, mudou de série mais de uma vez. Daí a pouco, já era a quinta.


Mas, um dia, a vida veio lhe lembrar o peso de sua mão!
E a filha mais velha, sua companheira, morreu afogada.


No dia seguinte, sabe-se lá por que coincidencia macabra... o velho também se foi. Coração explodiu... e a gente nem acreditava que ele tinha coração...


O mundo escureceu. Menina levava os filhos prá chorar no cemitério. Passava o dia na cova da filha - não sabia mais como viver. E as crianças, corriam, brincavam e se fartavam das muitas frutas tão bem adubadas daquele lugar... Mas, o coveiro se incomodou. Bagunça demais, podia não. Foi reclamar na igreja.


O padre se comoveu. Acolheu Menina e seus filhos na escola da congregação. Era o segundo milagre. Menina trabalhou prá comer, morar e estudar. Estudaram todos.


Um dia, o mais velho foi para as Forças Armadas, na cidade grande. Mais outros dias, e toda a família também para lá se foi.


Menina, linda!, já era professora e já podia trabalhar. 


Por lá, encontrou o verdadeiro companheiro, com quem teve mais uma filha, e de quem nunca mais se separou. 


Mudou de igreja, e na nova igreja, teve oportunidade de seguir estudando. Ele junto.


Fizeram teologia. Fizeram mestrado em teologia!


Vivem juntos, até hoje.
Menina tem filhos doutores. Emprego bom. E nunca mais deixou de sonhar.


Bonita, vaidosa – sempre arrumada e bem vestida. Quem vê Menina nem imagina.


Eu vi e ouvi! E conto para vocês.



segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Sob preconceitos e outras vergonhas...

*por AR


Outro dia eu estava voltando do almoço e, ao pegar o carro em frente de casa, vi duas garotas de cerca de 13, 14 anos conversando bem juntinhas. Nada demais. Duas amigas saindo da escola fofocando sobre o boy mais magia de todos, olhando mensagens no celular.
Ao chegar mais perto, vi algo que - confesso - me surpreendeu: as duas eram namoradas e estavam trocando carinhos. Dia alto, meio da rua, sem vergonha ou medo.
Ao mesmo tempo, percebi uma senhora com uma adolescente mais ou menos da idade das meninas no ponto de ônibus ao lado da minha garagem. A menina estava claramente criticando a atitude das outras e eu já podia "ouvir" a resposta da senhora, cheia de preconceitos e lições de moral.
Mas aí a vida - na forma desta senhora - me deu uma lição da qual dificilmente esquecerei...
Ela olhou para a neta e, com a expressão muito séria, disparou: "e daí se elas namoram? E daí se elas são mulheres que gostam de mulheres? O importante é que elas estão estudando, vivendo a vida delas. Melhor que você que está aí só fofocando. Você tem que aprender a viver sua vida, menina!"

E, chateada comigo, percebi o quão preconceituosa EU havia sido... Nem tanto pelas meninas, que, mesmo me surpreendendo, me deixaram feliz pela liberdade de expressão que elas tinham; mas pela atitude que eu achei que a senhora teria.

A gente sempre acha que o preconceito é do outro...

domingo, 28 de abril de 2013

Agora Posso ser Miss...

*por AR

Antes dos 11 anos li Quo Vadis?
O romance denso chamou a atenção dessa garotinha barata de biblioteca. A ambientação em Roma, citando personagens bíblicos e históricos, garantiram o restante do fascínio. Ter visto o filme, meio que escondida e de madrugada, foi o toque final para a escolha.
Confesso que li devagar, saboreando o fato de ler um livro 'de adulto' pela primeira vez, que muitos nem sabiam existir. Foi assim que parei de ler livros 'de criança'.

Embora nesta época eu já tivesse lido muitos de Charles Dickens, Hans Christian, Irmãos Grimm, entre outros, nunca cheguei a ler "O Pequeno Príncipe". Do alto do meu preconceito, eu achava que, por saber diversas citações, ter visto o filme e ser um "livro de Miss", não valia muito a pena... "Qualquer dia desses eu leio", eu pensava. "Já sei tantas citações que deve completar o livro." Deixei pra lá....

Até que, recentemente, meu namorado - um dos caras mais cultos que conheço, irreverente e com uma visão de mundo um tanto cética, cínica mesmo, às vezes - me falou do livro e do quão maravilhoso ele é.
Bardo então me deu o livro, meu primeiro presente de aniversário este ano, com a recomendação tácita de lê-lo com o coração aberto.

E finalmente esse pequeno governante do asteroide B612, que tinha uma rosa, três vulcões e conversava com serpentes e raposas, entrou em minha vida...

Mais do que os lindos, porém óbvios: "Você é responsável por aquilo que cativas", ou "Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos", vi um livro incrível, que fala de resistência às mudanças, culpas e seus círculos viciosos, egoísmo, egocentrismo, falta de sentido para a vida, ignorância... Fala também de visão, esperança, sabedoria, tolerância, afeto. Humildade, simplicidade, aceitação, coragem.

Estou completamente encantada com este livrinho gigantesco!!! Se, quando ainda criança, quis ver como pessoa grande, e acabei vendo; hoje, como pessoa grande que sou, me descobri capaz de ver como criança. De perceber o elefante na jiboia e admirar o carneirinho dormindo na caixa, ainda sem sua focinheira.


E sim. Eu acho que o principezinho deu jeito na falta da correia.

Agora me perguntam: Quo Vadis (para onde vais), Raquel?

Vou deixar a pessoa grande pensar com a simplicidade de uma criança, pegar carona e viajar pelos diversos planetas que povoam minha mente. Conhecer tantos asteroides, cometas e planetas quanto puder. Saber como se comportam meus governantes e praticar a simplicidade do meu pequeno amigo...  A viagem é longa...


Como Bardo disse: é um livro que basta ler uma vez, para remoê-lo o resto da vida...

E, segundo ele, era o que me faltava para ser Miss...

terça-feira, 9 de abril de 2013

Barreiras

por AR


Construímos tantos muros ao nosso redor que acabamos encerrados em nossas próprias fortalezas...
Do que exatamente estamos nos protegendo?
Do que precisamos nos esconder?

Damos tantos nomes aos nossos medos; tantas justificativas para sermos como somos... e acabamos por estender essa "pseudotolerância" para todos que nos cercam.

Deixamos nosso melhor subentendido e desperdiçamos o que de melhor nos oferecem...


sábado, 6 de abril de 2013

GAIA

*por AR



 Sempre acreditei em Anjos da Guarda e, desde pequenininha, acho que eles mudam de forma várias vezes durante nossas vidas. Às vezes assumem a forma de amigos; outras, de simples desconhecidos. E muitas dessas vezes, de animaizinhos.

Gaia entrou em nossas vidas em julho de 2011. O namoro do Bardo Ricardo Lemos com ela começou pelo Facebook, a partir de uma postagem do grupo Patinhas Carentes, onde uma cadelinha mestiça de Shar-pei com Não-sei mostrava sua linguinha colorida para a foto. E o nome dado a ela acabou por conquistá-lo.

Apesar de já ter 3 anos - foi encontrada vagando e muito doente nas ruas de Vitória - ela se identificou imediatamente com seu novo companheiro, que bastou abrir a porta do carro para a garotinha pular, toda feliz, e encarar o primeiro dia do resto da sua vida!

Bastava Gaia chegar em qualquer lugar para ser a sensação. Com seus olhos dourados, seu pelo avermelhado e sua língua roxa, nunca passava despercebida... Sem contar o carisma. Magnetismo, eu diria...

Companheira de estrada de primeira, encarou 10 horas de viagem para chegar em Cumuruxatiba sem um resmungo. Quando parávamos para banheiro ou lanche, ela calmamente acordava de seu sono de beleza, saia do carro, fazia seu pipizinho, bebia uma aguinha e voltava para sua almofadinha no banco traseiro. De vez em quando acordava para ganhar um carinho e olhar a estrada.

Saldo da viagem: conquistou  a Bahia e seus convidados, aterrorizou os guaiamuns e cavou alguns buracos até o Japão... Todas as três vezes que esteve lá!

As aventuras foram muitas!!!
Todas devidamente documentadas...

Gaia gostava de carinho, viajar, roubar frango assado da mesa, andar de carro, falar 'baleiês' , subir na cama em nossa ausência, se esparramar no sofá, ou no meio do caminho, em nosso pé sob a mesa...
Gostava de aterrorizar pequenos insetos, usar morcegos como chiclete, latir para a campainha, dormir ouvindo música...
De puxar fio de meia-calça e pular em roupas claras...
De fugir de chuvas, poças d'água e ondas...
De nos dar sustos altas horas da noite sumindo pelas ruas e aparecendo com a maior cara lavada quando tirávamos o carro da garagem para procurá-la...
De fazer a maior festa quando chegávamos, ofertando presentinhos que achava pelo chão...

E roncar... Como essa menininha roncava!!! Ouvindo música então!

Não gostava de ficar sozinha, das viagens de trabalho do Bardo, do sofá ocupado, de banho, que a corrente da guia encostasse nela, de olhar para os lados antes de atravessar a rua...
De ouvir um "Gaia fica! BO-NI-TA". Pra ser honesta, ela detestava ouvir isso, pois significava que não podia ir conosco. A gente também não gostava disso...

Na verdade, ela não gostava de bem pouca coisa...

Gaia gostava até de seus apelidos estranhos! Feiosa, Periguete, Fedorenta, Filó, Feiozzy (essa ela deve ao morcego)...
Ela gostava dos charmosinhos também, claro: Lady Gaia, Galotinha, Tapetinho, Menininha, Flor, Bonequinha, Princesa, Gostosa. Sem contar que ela era praticamente uma fauna. Nem a Arca de Noé era páreo para ela: rabo de tatu, cabeça de jacaré, rosnado de onça, pulava e corria como canguru e falava baleiês!!!

Gaia falava baleiês...

Foram tantas coisas incríveis, tantas pessoas cativadas por aqueles olhos dourados e carinha franzida...

Mas a missão dela por aqui estava terminando... Gaia já havia nos ensinado sobre superação, desprendimento, responsabilidade e o poder do amor. Porém ainda faltava uma coisa: entender São Chiquinho quando pediu:


"Senhor, dai-me força para mudar o que pode ser mudado...
Resignação para aceitar o que não pode ser mudado...

E sabedoria para distinguir uma coisa da outra."

Tivemos muito pouco tempo para lutar, mas o fizemos - juntos - até o fim. E ela aproveitou para nos dar mais uma lição de força e superação. E nos mostrar seu amor nos mínimos gestos.

Então, em uma manhã de céu azul e nuvens branquinhas, ela se despediu da gente e foi finalmente descansar. Não sem antes dar uma passada em alguns sonhos e conversar com algumas musas. Não sem antes nos ensinar sobre resignação e sabedoria...

O Anjo da Guarda do Bardo acabou sendo um presente de Deus para todos nós. Sabemos que ela voltou para pegar mais instruções com Papai do Céu e São Chiquinho para vir de novo em outro momento ensinar novas lições para quem precisar.

E, generosa como sempre, deixou as portas abertas...



*Patinhas Carentes é um grupo criado no Facebook e formado por amantes de animais, que resgatam, cuidam e doam os abandonados e perdidos para lares amorosos. Conheça o trabalho fantástico feito por esse pessoal: facebook.com/PatinhasCarentes

**Embora eu nunca tenha entendido como um ser apaixonante possa ter sofrido abandono (sempre apostei mais na hipótese dela ter se perdido), tenho consciência que a história dela só aumentou o carinho que todos sentiam.

***Gaia se foi no Dia do Animal de Rua (04/04). Não à toa...




sábado, 30 de março de 2013

Os mestres de São Chiquim...

*por AR


Meu irmão sempre diz que, para atingir o equilíbrio, a pessoa deve ser amada incondicionalmente por um cachorro e totalmente ignorada por um gato.
(Até concordo, mas tenho um cadinho de pena dos gatos nesta frase... Afinal, eles só são mais discretos em suas manifestações de carinho...)

Aí vem São Francisco e nos diz o que aprendeu com esses bichinhos:

"Onde houver ódio, que eu leve o amor;
Onde houver ofensa, que eu leve o perdão;
Onde houver discórdia, que eu leve a união;
Onde houver dúvida, que eu leve a fé;
Onde houver erro, que eu leve a verdade;
Onde houver desespero, que eu leve a esperança;
Onde houver tristeza, que eu leve a alegria;
Onde houver trevas, que eu leve a luz.
Ó Mestre, Fazei que eu procure mais
Consolar, que ser consolado;
compreender, que ser compreendido;
amar, que ser amado.
Pois, é dando que se recebe,
é perdoando que se é perdoado..."

Pois é... Já pararam pra pensar o quanto de amor esses bichinhos podem nos ensinar? Não importa quantas prioridades tenhamos em nosso dia-a-dia, ou quanto "ignoramos" nossos amiguinhos, quando chegamos em casa tem sempre festa! Se um rabinho balançando tanto que parece que o bichinho vai voar, ou um ronronar satisfeito se enroscando em nossas pernas, a demonstração de amor é sempre grande.

Ou seja: não importa o que a gente ofereça para eles. Eles SEMPRE nos dão o seu melhor, mesmo quando não recebem o mesmo em troca.  Mas continuam oferecendo, e oferecendo, e oferecendo...

E não devem entender porque achamos tão difícil fazer o mesmo...


terça-feira, 19 de março de 2013

Diário de Uma Motorista

*por AR


Poucas coisas me irritam tanto quanto o trânsito.

Todo dia eu pego o carro e me condiciono a ter paciência para não sair por aí  levando sustos e tendo que inventar novos palavrões, mas é difícil. É um festival de barbeiragens, desrespeito, imprudência, imperícia, imbecilidade...

Fico tentando decifrar, enquanto ando a 10Km por hora em uma via de 50, o que de tão interessante tem pro sujeito da frente esquecer que o acelerador é ali do lado do freio... Eu até engulo o palavrão, mas a buzina é mais rápida... Sei que é feio e tal, mas pelo menos, o mautorista se toca e dá um jeito de acelerar ou sair da frente. Tem uns recalcados que diminuem ainda mais a "velocidade".

Aí, quando consigo me livrar do talzinho, vejo um outro que enfia a cara, o carro e tudo no meio da pista. Caramba! Será que o ponto cego dele tem 150º? Além do susto, do palavrão engolido e de algumas manobras radicais, você consegue parar para dar passagem ao cidadão. Ou desviar dele.

Mais um cadinho e um sujeito totalmente zémané para na sua frente. Simplesmente para... Assim, sem mais nem menos... Aí, sai um canhão vestido de periguete  do carro - praticamente em câmera lenta - e vai se despedir (!?!?!) pela janela do motorista... Pombas!!! (quase escapou um palavrão!) Nesse ínterim, os carros se acumulam atrás, as buzinas se fazem ouvir, o mundo gira, a maré sobe, desce, sobe... e mais um palavrão vira verbete no meu dicionário de palavras infames.

Ok. Mais um obstáculo ultrapassado. Ufa! Rio da minha mania de "Sr. Volante" e sigo em frente. No sinal, sou espremida por duas motos. Além do medo de assalto, fico relembrando minhas aulas de trigonometria e física, para calcular a área que tenho, deslocamento, fico me repetindo aquele lance de dois corpos não ocuparem o mesmo lugar no espaço... e rezo... o sinal abre, surgem mais uns três sei lá de onde e o apressadinho de trás, mesmo vendo meu sufoco para evitar a quebra de uma lei da física, vai com força na buzina de seu carro, me mandando sair da frente...

Saio, né... Perdi a razão quando buzinei lá atrás...

Aí, entra uma bicicleta na minha frente, com um projeto de mautorista no guidom, e uma pessoa resolve atravessar um sinal aberto pra mim, olhando com cara de "passa por cima que eu quero ver!".

Jesus, tire meu pé do acelerador!!!

Então respiro fundo... e acrescento mais um verbete do mal lá no livrinho negro (ops... sou Cypriano... melhor deixar esse lance de livro negro pra lá...). Enfim, invento um palavrão novinho em folha!

Na agência, tento estacionar, mas é impossível. Dá vontade de deixar o carro de novo em casa, mas resisto, pois sei que precisarei do carro por perto durante todo o dia... Ossos do ofício...

Então rodo, rodo, rezo pra alguém lembrar que esqueceu a panela de feijão no fogo, pegar o carro e me liberar uma vaga, até achar um espacinho pra mim.

Aí o dia acaba e resolvo ir pra casa. E me deparo com uma ruinha que mal dá para um carro passar... mas enfiaram um carro estacionado de cada lado e, logo depois um caminhão para fazer entrega pra um mercadinho menor que sua caçamba...

Caçamba!!! Haja!!!

Você vira na última rua antes de chegar no conforto de sua garagem e dá de cara, ou o outro lado, pra ser exata, de uma grávida brigando com o namorado e fazendo cena no meio da rua...

Meus sais...

Ando mais um cadinho e, quase lá, descubro que conseguiram fazer fila dupla na frente da minha garagem.
Não tenho que achar um motorista folgado e mal educado. São dois!!! E, claro, o primeiro demooora a aparecer, me obrigando a ouvir as grosserias de um cidadão que deve achar que ali o tal do E com um risco sobre ele nada mais é que uma limitação de vogais...

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