sábado, 25 de dezembro de 2010

Éramos Seis

*por Ana Raquel

Hoje, depois do vai-e-vem de diversas pessoas que orbitam ao nosso redor, ficamos só nós seis para o almoço de Natal. Os originais. Os que deram início à multidão que invadiu a casa para as festas. Eu, meus pais e meus 3 irmãos.

Pareceria rotina, se não fosse o fato de não fazermos isso há anos. Marcelo, meu irmão mais velho, mora em Sampa há quase 20 anos, entre indas e (poucas) vindas. Rosana e Rodrigo também já moraram fora. Eu, embora pouco este ano, estou sempre viajando.
Claro que já aconteceu de estarmos os seis juntos em outras ocasiões, mas sempre tinha outras pessoas conosco e, embora isto seja muito bom, eu não havia percebido o quanto fez falta estarmos sozinhos um pouco... até hoje...

Como toda família que se preze, todo mundo falava aomesmotempoagora, cada um contando um "causo", dando pitaco, ordens e passa-foras. Mas todos curtiram um momento especial, principalmente por ser tão raro.
À mesa, entre comentários sobre a ceia de ontem à noite, fofocas quentes e brincadeiras há muito esquecidas, fiquei lembrando de outras épocas, quando essa reunião era rotineira. Minha memória foi longe.

Lembrei de quando éramos bem nenéns, ainda no Rio de Janeiro, onde nascemos. Tenho poucas lembranças do lugar por ter saído de lá com três anos, mas são bem nítidas. Papai fardado na cozinha, ajudando mamãe a dar comida pra gente. A televisãozinha azul ligada na bancada - passando "A Feiticeira". Mamãe alimentando Kiko, que era um pinguinho; Papai entregando a mamadeira para Rosana, outro pedacinho de gente... Eu não era muito maior, já que a diferença de idade entre nós três é quase nada, mas Marcelo já era grande e se alimentava sozinho. Durante anos, pra ser honesta, até hoje, toda vez que vejo uma cena do seriado, com a Samanta alimentando a Thabata no cadeirão, eu lembro disso.

Outras lembranças, essas já em Campos, vieram em sequência. Kiko falando sem parar e, agitado, derrubando o copo de suco dentro do prato. Pra não perder a pose e, principalmente, não levar uma bronca maior do que a que havia levado, o bonitão comeu tudo sem dar um pio. Nunca me esquecerei daquela coxa de frango boiando no suco de laranja. Que nojo! rs
Hoje em dia, levando em conta que a combinação é uma delícia, não deve ter sido grande sacrifício... rsrs

Lembrei dos acampamentos. Ah... Os acampamentos... Marcelo sempre mal-humorado (ele é urbano até o último fio de cabelo), eu sempre me metendo em encrenca por ser a mais aventureira. Quem passava pela ponte de tronco fino sobre o riacho super gelado? Quem subia em qualquer árvore para pegar frutas fresquinhas? Quem pescava piabinha até com o anzol vazio? Quem explorava o interior de uma casa cheia de quinquilharias deixadas pelos donos anteriores (apesar de Papai ter comprado a casa do sítio em boas condições, acampávamos do outro lado do riacho, com direito à comida de fogareiro e dormir na barraca...)? Quem atolava na lama até o joelho atrás de flores de Copo de Leite? É ou não aventura? Claro que levava Rosana e Rodrigo comigo, o que sempre rendia confusões a mais! rsrsr

Lembrei dos nossos verões, em que eu, branquela numa família de morenos ou altamente bronzeáveis, sofria! Claro que meus pais cuidavam com todo cuidado de minha pele, me bezuntando de protetores e hidratantes e me atolando em chapéus, mas... Já viu criança resistir à castelinhos de areia na beira das ondas??? Ainda mais com irmãos tão morenos, que faziam verdadeiros feudos à beira mar...

A lembranças foram me assaltando de uma forma super gostosa. Nossas reuniões noturnas quando chegavam as mais novas encomendas que Papai fazia ao Clube do Livro. Ou quando ele colocava a mais nova aquisição da loja de discos; ou quando comprava o aparelho mais moderno de som, vídeo ou qualquer outra coisa, desde que novidade. Ou durante as férias ou finais de semana, quando andávamos de bicicleta, ou empinávamos arraia, jogávamos frescobol ou vôlei (com rede e bola oficial, porque pro Papai sempre tem que ser tudo ou nada! rs).

Papai sempre foi o grande agregador (leia-se inventor de modas), mas Mamãe sempre foi sua co-piloto. Ela apoiava cada novidade que ele trazia pra gente. E olha que eram muitas! Não tínhamos finais de semana de tédio olhando pro teto... Quando não estávamos desbravando algo, Mamãe nos reunia na cozinha ou na sala, nos ensinando a cozinhar, a bordar, a pintar, a escrever... Às vezes, por causa do trabalho, Papai não podia estar conosco, mas quando estava... que festa! Até hoje o melhor tempero da família é o dele, sem contar os pães maravilhosos que ele inventava!
Que saudade desses pães!!! E o cardápio, que até hoje é ele quem dita?

Lembrei de tudo um pouco: dos livros (milhares! Meus pais são incríveis, mas neste aspecto, eles se superaram ainda mais!), das músicas (contribuição do Papai, com o sempre apoio da Mamãe, que lhe presenteou com um aparelho de som incrível até para os dias de hoje), das festas com os bolos feitos por nós (todos nós sabemos fazer bolos incríveis com massa de pão-de-ló, graças à Mamãe), das viagens, dos simples passeios nos parques (lembrei até do "banco da sereia" que tínhamos em Campos no Parque São Benedito), dos nossos almoços e jantares cheios de conversas, risos e, ocasionalmente, manhas e broncas.

Passou um filme completo em minha cabeça e uma certa nostalgia, ao perceber que esse tipo de encontro vai ficar cada vez mais raro. Não por um motivo ruim, mas porque agora a família é bem maior. Maridos, esposas, filhos, namoradas, noivas, amigos. Ano que vem, por exemplo, teremos um nenenzinho para incrementar essa contagem...

Toda essa nossa história só serviu para fortalecer nossos valores, preparando o terreno para que a família pudesse aumentar de forma saudável e unida, apesar do peso do dia-a-dia e do gênio difícil que todos temos (rsrsrs).

Uma coisa é certa: éramos seis; e seremos ainda muito mais!!!

Um comentário:

Luciano disse...

Raquelzinha,

foi um prazer ser recebido por você com tanto carinho e atenção. Não lhe disse em nenhum momento, mas foi uma surpresa incrível ter sido recepcionado por uma mulher linda assim. Não sei se percebeu, mas fiquei gago ao me apresentar... Porém a culpa não foi minha, mas sim do sorriso incrível que você me deu. Como lembrar do meu nome naquele momento? Foi um trabalho hercúleo (já que adora mitologia, como demonstram os livros em sua estante, vou apelar).
Fiquei ainda mais encantado ao conhecer a mulher inteligente, sensível e despretensiosa por detrás desta fachada de parar o trânsito!
Além de tudo, uma anfitriã incrível, dosando perfeitamente a atenção aos detalhes com a liberdade em usufruirmos da sua hospedagem, como se a casa fosse nossa. E olha que não está acostumada, como me disse...
O que dizer mais? Fiquei encantado. Aliás, estou encantado por você. Sei que tem namorado e é apaixonada por ele, embora eu realmente não entenda porque estava sozinha... Confesso que quis aprofundar o assunto, mas percebi o quanto isto a incomodou. Embora tenha ficado linda vermelhinha de embaraço, peço desculpas por este momento.
Mas não entendo este cara! Você é uma linda feiticeira "loira-ruiva" com uma boca perfeita. Será que só ele é imune?

Ok. Não toco mais no assunto... por enquanto!

Quero aproveitar este espaço, linda, para desejar um 2011 tão maravilhoso quanto você é.

Foi especial conhecê-la. Beijos de seu mais novo amigo.

Luciano

P.S.: Perguntaram-me com quem eu gostaria de estar na virada do ano. Pensei em você.

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